Adriano Monte Alegre
É daqui deste meu retângulo aberto na parede de concreto do quarto que passo horas mastigando e ruminando calmamente as lembranças do passado. Quando não é isso, fico debruçado na janela somente para observar os eventos dispersos no jardim do asilo e refletir sobre eles. O fato é que, deste lugar, posso enxergar uma infinidade de coisas contidas em um espaço finito. Daqui eu sou capaz, por exemplo, de contemplar o pé de hibisco-colibri, no qual inúmeras e vistosas flores vermelhas são visitadas diariamente por um beija-flor solitário – a minúscula ave brilha com suas cores metálicas enquanto paira no ar, como um helicóptero, para penetrar seu bico longo no cálice açucarado das flores. Uma cena tão delicada que, se pudéssemos apalpá-la, reconheceríamos a textura da seda. Um espetáculo cuja grandeza quase não cabe nas palavras.
O pé de hibisco-colibri, também conhecido pelo nome de Malvavisco, está plantado a menos de três metros de distância da minha janela, o que me permite perceber muitos detalhes da troca de benefícios entre a ave e as flores. Apesar disso, ainda ontem, no percurso das idas e vindas do beija-flor a uma velocidade alucinante, tive impressão de que havia ocorrido algo na cena imperceptível aos meus olhos. Essa sensação que me envolveu parecia me alertar para a existência de algo grandioso por detrás da vida. Às vezes, esse sentimento ainda fica oscilando calmamente entre meu coração e a minha cabeça. O vai-e-vem até se parece com o balanço gerado na flor do hibisco sempre que o beija-flor a abandona.
Da minha janela, acompanho igualmente muitas outras coisas. Posso ver os nossos idosos, amparados por enfermeiras ou pelas próprias muletas enquanto caminham cuidadosamente pelo gramado. Idosos estes que, antes de riscarem uma sombra sobre mim, nunca se esquecem de interromper seus passos por alguns segundos para me destinarem uma frase gentil e um sorriso cor-de-rosa. Nestas ocasiões, sinto que seus pequenos gestos me alimentam como se fossem pães.
Nenhum lugar pode ser mais confortável do que minha janela. Nela, mobilizo a serenidade. Açoito o mal. Vislumbro os horizontes. Aprofundo meus conhecimentos sobre os trejeitos da vida, incluindo suas manias e seus reflexos. E no final todas essas coisas são suficientes para me deixar feliz.
Há quatro anos, cheguei a me questionar sobre minha rotina. Queria saber se era inútil passar meu tempo debruçado à janela. Mas isso ficou no passado; agora, trago minha verdade. Uma verdade que me liberta das algemas que me pus um dia. Hoje, acredito que é a inércia da alma que constrói situações inúteis. Do contrário, quando a alma esta preenchida, as rotinas, sejam elas quais forem, têm uma importância secundária.
É preciso que a nossa verdade nos caiba como uma luva e que envolva as nossas mais íntimas diferenças. Facilmente podemos perceber que a felicidade faz par com a verdade e que ela desaparece com a mentira. A felicidade está na essência, e fora da essência o que existe são enfeites.
Para mim, a felicidade é como uma borboleta que gosta de sobrevoar campos de lírios em dias de tempo calmo, mas que se esconde como uma sombra na noite, aos primeiros sinais de ventania. Acho que a felicidade possa surgir em qualquer uma das quatro estações, no momento em que dois ponteiros de um relógio se encontram, no meio dos dias e das noites. A felicidade também pode despontar nos lugares mais inusitados: perto de uma lagoa riscada por dois gansos, nos asilos, no interior de um trem barulhento, à beira de uma estrada, junto ao mar e longe dele.
Aqui no asilo a felicidade costuma ser discreta. E como poucos a percebem, muitos são infelizes. A infelicidade é irmã do ‘vazio’. E apesar da contradição, nada pesa mais do que um ‘vazio’ embutido no peito. Parasitado por esse sentimento, nossos idosos percorrem labirintos terríveis do íntimo. Nestes momentos, o asilo se torna um antro de velhos surdos-mudos que se deslocam a passos lentos ou se balançam em poltronas nos corredores da grande casa. Um lugar onde os indivíduos se entreolham com paciência como se conhecessem a alma do outro, como se vissem no peito dos colegas o mesmo corte profundo que marca suas próprias vidas.
O ‘vazio’ é como uma erva daninha que, cobrindo um terreno fértil, impede o crescimento de boas plantas. E quando o ‘vazio’ se alastra no peito do homem, ele sufoca sua esperança. E quando a esperança morre, a infelicidade domina.
Neste estágio da alma, os idosos vagam quase que sem consciência nos corredores do asilo. A boca nervosa mastigando o nada. As mãos trêmulas. As pernas fracas e os chinelos gastos. A flama de vida cintilando abafada.
Humanos que seguem os dias na companhia quase que exclusiva de suas próprias mazelas: neuroses, tremores do mal de Parkinson, dores diversas, bermudas cheirando a urina, flatulências incontidas. De resto, nada além de lembranças. No fundo sei que todos eles são maiores do que as circunstâncias que os envolvem. E isso já me tranqüiliza. Para mim, os homens são como os icebergs: o que existe de grande neles está submerso.
As copas das árvores frondosas do jardim balançavam delicadamente sob a brisa do entardecer, quando pensei em uma frase que havia lido certa feita em um desses livros abandonados que costumamos achar nos solos empoeirados de porões. Nele estava escrito: “Os corações precisam de luz, pois só desse jeito podem afastar os sentimentos vis que se nutrem da escuridão”.
Desviando meus olhos das árvores, notei que um fio de luz solar, do final da tarde, que há pouco descansava sobre meus braços, seguia viagem para iluminar o outro lado do planeta. Sua cor amarelada me fez lembrar de uma cena, bela como a flor de girassol, ocorrida no início da tarde no nosso jardim. Da minha janela eu havia notado muitos idosos atentos a uma garota de cabelos dourados, provavelmente filha de um visitante, que corria sobre o gramado. A criança de aproximadamente seis anos de idade brincava de se esconder atrás de uma grande árvore. De tempos em tempos ela corria em ziguezague pelo espaço verdejante e depois retornava mais uma vez para trás do tronco. A garota resplandecia tamanha alergia e espontaneidade. Os velhos acompanhavam suas brincadeiras balançando a cabeça com um movimento pendular. A menina ria, e seu riso repercutia como notas agradáveis. A cena parecia encantada. A juventude era um ponto no meio de um círculo de envelhecidos. Esse havia sido o mais belo encontro entre a juventude e a velhice que eu já pude presenciar.
Quando fechei a janela, a noite já havia despencado e os hospedes conduzidos do jardim do asilo até seus aposentos.
Perambulei um pouco no quarto. Depois fui até o banheiro, onde me deparei com o pequeno espelho preso por um prego entre os azulejos que forravam a parede. Apoiando-me com as mãos nas bordas do lavabo que fazia um ângulo de 90° com o espelho, fiquei ali olhando minha imagem refletida. Meu rosto parecia carregar incontáveis particularidades. Uma larga ossatura que ressaltava meus traços angulares. A barba, por fazer, que despontava branca e dura como arbustos desfolhados brotando de um solo rachado. Rugas que ornavam minha pele e que se pareciam com as marcas que o tempo estampa nas montanhas. A fronte larga que estava recoberta por uma camada de suor. O nariz grande e curvo que lançava tufos de pelos por seus orifícios. Porém, entre todos os detalhes que minha face podia conter nada me parecia mais singular do que aquilo que existia nos meus olhos. Eram olhos de duas cores. Olhos mágicos. Olhos marrons com bordas azuladas. Olhos que continham a mistura de cores comuns nas íris de muitos velhos. Cores que se abraçam com a idade, que simbolizam dois espaços. Cores que se misturam nos olhos daqueles que começam a se perder entre a terra e o céu.
No pequeno espelho, além das cores pintadas nos meus olhos, vi refletidos dois pontos de luz que pareciam ter viajado o infinito e submergido de meus olhos. Eles iluminavam e intensificavam todas as coisas ao meu redor. De maneira que coisas minúsculas e obscuras tornavam-se maiores e mais evidentes. Eventos simples ganhavam complexidades. Emoções amorfas tornavam-se ricas em contornos.
Depois dessas coisas, eu apaguei as luzes do quarto e entrei debaixo das cobertas e dormi até o momento em que despertei no meio da madrugada para matar a sede. Esse fato, entretanto, me fez perder o sono; e então voltei a me debruçar na janela. A lua estava enorme e iluminava fracamente o jardim. As árvores remexiam suas folhas. E o mesmo vento que passeava entre as árvores, alisava as flores do hibisco e me trazia o cheiro de folhas novas e de gravetos mortos. O vento cantava uma valsa em meus ouvidos. A noite estava linda. No céu as estrelas flertavam com a terra. Escutei uma coruja piar e o som repercutiu por alguns segundos nos arredores. Eu não via a ave noturna; ela devia estar escondida por entre os galhos de uma árvore próxima. Mas imaginei seus olhos graúdos. Suas duas bolas que parecem absorver o mundo ao seu redor. Isso me fez recordar, inclusive, de minha imagem refletida no pequeno espelho do banheiro. Meus olhos contendo o marrom da terra e azul do céu. E os dois pontos de luz submergindo de suas profundezas.
Voltei a olhar o jardim. A luz da lua quebrava a escuridão, permitindo-me enxergar um novo espetáculo. Folhas secas dançavam em corrupios ao som da valsa cantada pelo vento. As folhas também produziam uma música toda particular. Era contagiante aquela euforia. De repente, todas as coisas pareciam dançar sob a luz da lua e a canção dos ventos.
Por fim, os acontecimentos me fizeram ter certeza de algo que eu já suspeitava. Na verdade, quando temos uma boa janela, nada mais pode nos impedir de ver o mundo como um bom lugar.
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